sexta-feira, 13 de junho de 2014

CONFORTO AOS QUE SÃO ALVO DE TENTAÇÃO – C. H. SPURGEON Sermão proferido por Charles H. Spurgeon no Metropolin Tabernacle, em Newington, numa quinta-feira à noite, dia 27 de setembro de 1883 com base em 1 Co 10.13




CONFORTO AOS QUE SÃO ALVO DE TENTAÇÃO – C. H. SPURGEON

Sermão proferido por Charles H. Spurgeon no Metropolin Tabernacle, em Newington, numa quinta-feira à noite, dia 27 de setembro de 1883 com base em 1 Co 10.13

“Não veio sobre vós nenhuma tentação que não fosse humana. Mas Deus é fiel e não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir. Pelo contrário, juntamente com a tentação providenciará uma saída, para que a possais suportar”. (1 Co 10.13).

TODOS OS FILHOS DE DEUS são sujeitos à tentação. Alguns são tentados mais que outros, mas, tirando os que, de tão jovens, não têm consciência do mal, estou convencido de que não há nenhum que entrará no céu sem ter sofrido tentação. Se há alguém que escapou, certamente foi “o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). Mas você deve se lembrar de como ele foi levado pelo Espírito para o deserto, diretamente das águas do batismo, para ser tentado pelo Diabo. O apóstolo Paulo informa também que, “à nossa semelhança, foi tentado em todas as coisas, porém sem pecado” (Hb 4.15). O Senhor Jesus pode verdadeiramente dizer a nós, que somos seus seguidores: “Se eu, seu mestre, fui tentado, você não pode pensar que escapará da tentação, porque o discípulo não está acima de seu mestre, nem o servo acima de seu Senhor”.

O fato de sermos tentados deveria nos quebrantar, pois é uma triste evidência de que o pecado ainda permanece em nós. Tenho idade suficiente para lembrar-se do tempo em que esfregávamos uma pederneira contra um pedaço de aço para obter fogo pela manhã. E recordo que sempre parava de tentar produzir faísca quando descobria que não havia mecha na minha caixa de apetrechos. Acredito que o Diabo não é tolo, e, se o homem estivesse sem mecha em sua caixinha de fogo -  ou seja, sem corrupção em sua natureza -, Satanás não continuaria a tentá-lo por muito tempo. Não desperdiçaria tempo num exercício inútil desses. O homem que acredita ser perfeito nunca poderá fazer a Oração do Senhor. Terá de criar a própria oração, pois nunca desejará dizer: “... não nos deixes entrar em tentação” (Mt 6.13). No entanto, amados, como o Diabo acredita valer a pena gastar tempo em nos tentar, podemos concluir que há algo em nós que é propenso à tentação – que o pecado ainda habita em nós, apesar de a graça de Deus nos ter renovado o coração.

O fato de sermos tentados também deve nos lembrar de nossa fraqueza. Acabei de fazer referência ao modelo de oração de nosso Senhor Jesus Cristo, em que temos a frase “não nos deixes entrar em tentação” (Mt 6.13). A razão para apresentar uma petição dessas é certamente o fato de sermos tão fracos e frágeis. Pedimos que não sejamos sobrecarregados porque temos costas fracas. Suplicamos que o pecado não seja colocado diante de nós em nenhuma se suas formas atraentes, pois muitas vezes a carne toma emprestada a força do mundo e até mesmo do Diabo, e essas potências aliadas passam a ser demasiadamente grandes para nós, a menos que a onipotência de Deus seja exercida a nosso favor, sustentando-nos para nos impedir de cair.

Alguns filhos de Deus que conheço ficam muito atribulados pelo fato de serem tentados. Acreditam que poderiam suportar a provação caso ela viesse desacompanhada do pecado. Mas não vejo como, via de regra, podemos separar provação de tentação, uma vez que cada prova que vem sobre nós tem em si um tipo ou outro de tentação, tanto no que se refere à descrença ou à murmuração quanto no que diz respeito ao uso de meios errados para escapar de provação.   Somos tentados, no sentido de sermos testados, tanto pelas misericórdias recebidas quanto pelos infortúnios sofridos. Mas, para o filho de Deus, o mais grave é que, às vezes, ele é tentado a fazer ou a dizer coisas que absolutamente odeia. O filho de Deus vê diante de si, com aspecto agradável, pecados completamente abomináveis para ele, pecados cujo próprio nome nem sequer pode suportar. No entanto, Satanás vem e coloca diante dele as carnes impuras em que ele se recusa a tocar. E sei que o Diabo tenta o povo de Deus injetando na mente pensamentos blasfemo, arremessando-os em seus ouvidos como um furacão. Ah, mesmo quando você está em oração, pode acontecer que pensamentos exatamente contrários àquele momento devocional invadam sua mente. Um pequeno barulho na rua o afastará da comunhão com Deus; e, antes mesmo que tome consciência disso, seus pensamentos, como cavalos selvagens, terão galopado por montes e vales, e você mal saberá como reuni-los novamente. Ora, tentações como essas terrivelmente dolorosas para o filho de Deus. Ele não pode suportar o hálito envenenado do pecado e, quando descobre que o pecado está batendo à porta, gritando debaixo de sua janela, perturbando-o dia e noite, como tem acontecido a alguns – espero que não a muitos -, sente-se extremamente perseguido e gravemente atribulado.  Talvez ajude se eu lembrar essa pessoa que não há pecado em ser tentada. O pecado é do tentador, não do tentado. Se você resistir a tentação, terá uma atitude louvável. Mas não há nada louvável na tentação. Ela é má, e nada mais que isso. No entanto, você não tentou a si mesmo, e aquele que o tentou é que deve ser culpado de tentação. Evidentemente, você não é culpado por pensamentos que o afligem. Eles podem comprovar que o pecado ainda permanece em você, mas não há pecado em ser tentado. O pecado está em ceder à tentação, e você será abençoado se conseguir se afastar dela. Se conseguir vencê-la, se seu espírito não se render a ela, você deve até mesmo ser abençoado por meio dela. “Bem-aventurado o varão que sofre a tentação” (Tg 1.12, RC). Há uma bem-aventurança mesmo na tentação, e, apesar de no presente ela não parecer agradável, mas opressiva, produzirá depois um fruto abençoado para os que por ela são exercitados.

Além disso, há coisas piores neste mundo que sermos atacados com tentações dolorosas. É muito pior ser alvo de uma tentação agradável – ser delicadamente sugado para a boca do destruidor -, ser arrastado pela corrente suave para depois ser arremessada catarata abaixo. Isso é terrível! Mas lutar contra a tentação, isso é bom. Digo mais uma vez que existem coisas muito piores que ser provado com uma tentação que desperta toda indignação de seu próprio espírito. Um antigo teólogo costumava dizer que tinha mais medo de um demônio do sono que de um rugidor. E há grande verdade nessa observação; pois, quando você é deixado completamente em paz e nenhuma tentação o assalta, você tende a ficar carnalmente seguro e a dizer, com orgulho: “Eu nunca serei abalado”. Acho que nenhum homem está em perigo tão iminente como aquele que pensa que nenhum perigo lhe possa suceder. Assim, o que nos mantém na torre de vigia, mesmo sendo algo mau em si mesmo, é suplantado pelo bem. A parte mais perigosa da estrada para o céu não é o vale da sombra da morte. Não achamos que Cristão, o protagonista do peregrino, dormiria com todos aqueles duendes, nem no momento em que achou difícil sentir o caminho e se manter nele, mas, sim, quando ele e Esperançoso chegaram ao Solo Enfeitiçado, “onde o ar naturalmente deixa os homens sonolentos”. Era nesse ponto que os peregrinos entravam em grande perigo, até que Cristão lembrou a seus companheiros de viagem que haviam sido avisados pelos pastores para não dormir quando chegassem a essa parte enganosa do caminho. Creio, portanto, que ser assaltado com tentações dolorosas – as que incitam o espírito quase à loucura -, por pior que seja a prova ou por mais difícil que seja de suportá-la, talvez não seja o pior que nos possa acontecer espiritualmente. De todos os males que o cercam, sempre escolha o menor. E, como essas não são as tentações mais prejudiciais, não entre em total desespero caso lhe caiba ser tentado como foram muitos antes de você.

Isso é o suficiente como introdução a uma pequena conversa sobre tentação, com o propósito de confortar qualquer pessoa extremamente tentada por Satanás. Sei que estou falando a muitos nessa condição e por isso gostaria de repetir as palavras da nossa passagem: “Não veio sobre vós nenhuma tentação que não fosse humana. Mas Deus é fiel e não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir. Pelo contrário, juntamente com a tentação providenciará uma saída, para que possais suportar” (1 Co 10.13). Querido amigo sob tentação, lembre-se de que você não deve se sentar em desespero e dizer: “Estou sendo profundamente tentado agora e temo ser tentado de forma cada vez pior, até que meus pés deslizem, e eu caia, e pereça completamente”. Não fale como Davi quando foi caçado como uma perdiz nos montes – “Algum dia ainda morrerei pela mão de Saul” (1 Sm 27.1) -, mas creia que o Senhor, que lhe permite ser tentado, lhe dará livramento em seu próprio e bom tempo.  

I. Aqui está seu primeiro conforto:

HOUVE UM LIMITE EM TODAS AS SUAS PROVAÇÕES ANTERIORES.
“Não veio sobre vós nenhuma tentação que não fosse humana...”.

Por vezes, a tentação tem se apoderado de você, como um estrangular pega um homem pela garganta, de repente. Tem se apoderado de você – talvez esse seja o verbo mais precioso que eu possa usar. Ela tem se apoderado de você de surpresa, amarrando-o e imobilizando-o com rapidez. E, ainda assim, as tentações que você suportou até agora não vão além das que acometem a todos os homens.

Em primeiro lugar, são como aquelas enfrentadas por seus companheiros cristãos. Sei que você é tentado a pensar que é um viajante solitário em uma estrada que ninguém jamais atravessou; mas, se examinar cuidadosamente a trilha, descobrirá as pegadas de alguns dos melhores servos de Deus que passaram ao longo desse caminho enfadonho. É uma vida muito escura, você diz, que pode realmente ser chamada “Viela Mortal”. Ah! Mas você vai descobrir que os apóstolos percorreram esse caminho, os que confessaram sua fé passaram por esse caminho, mártires andaram por esse caminho e o melhor dos santos de Deus foi tentado assim como você está sendo agora. “Ah!”, dirá alguém, “mas estou sendo tentando =, como você disse há pouco, como pensamentos blasfemos e horríveis”. Assim foi com o mestre John Bunyan. Leia Grace abounding to the chief of sinners [Graça abundante ao principal dos pecadores] e veja as coisas pelas quais ele teve de passar. Muitos outros tiveram experiência similar, e entre eles estão alguns de nós que estamos vivos para lhe dizer que sabemos tudo sobre essa forma especial de tentação, embora o Senhor tenha nos livrado dela. “Ah!”, diria outra alma tentada, “mas tenho sido tentado até mesmo no que se refere a me autodestruir”. Essa também não tem sido uma tentação incomum até mesmo aos santos mais queridos de Deus, e, embora ele os tenha preservado e mantido vivos, ainda assim muitas vezes eles se sentiram como Jó, quando disse:“Prefiro ser estrangulado, e sofrer a morte, a este meu sofrimento” (7.15). “Ah!”, exclama outro, “sou tentado ao pior dos pecados, ao mais vis pecados, e não deveria me atrever nem sequer a mencionar as abominações que Satanás me tenta a cometer”. Você não precisa me dizer, e confio que você será preservado contra elas pelo poder onipotente do Espírito Santo de Deus. Mas posso garantir que mesmo os santos no céu, se lhe pudessem falar neste momento, diriam que alguns deles foram grandemente afligidos – mesmo alguns dos mais valorosos dentre eles, que andaram mais próximos a Deus, foram duramente atormentados por tentações que não teriam mencionado a seus companheiros, tamanha perturbação sofrida por eles. Talvez ainda outro amigo diga: “Na verdade, tenho sido tentado à autojustiça, que é a maior tentação que pode acontecer a um homem cuja confiança está totalmente em Cristo”. Bem, foi o que aconteceu ao mestre John Knox, o grande pregador da justificação pela fé. Quando estava morrendo, foi tentando a gloriar-se em sua própria coragem por Cristo, mas lutou contra esse mau pensamento e o superou, assim como você pode superá-lo.

Você acha que, quando um homem é muito paciente, ele não é tentado à impaciência. Irmão, o Espírito de Deus diz, pela pena do apóstolo Tiago: “Ouvires sobre a paciência de Jó” (5.11). Sugiro a você esta pergunta: “Você não ouviu falar da impaciência de Jó?”. Você já ouviu falar, sem dúvida, da grande fé de Pedro. Nunca ouviu falar da incredulidade de Pedro? Os membros do povo de Deus costumam falar precisamente naquilo em que são mais famosos, e, no que diz respeito às biografias bíblicas, o homem que tem maior notoriedade por toda a obra do Espírito de Deus em sua vida geralmente é o que falhou exatamente onde pensava ser mais forte. “Já li sobre a vida de homens bons”, você diz, “eu não sou como eles”. Devo dizer por quê? Porque a vida deles não foi inteiramente escrita; mas, quando o Espírito Santo escreve sobre a vida de um homem, ele diz tudo. Quando biógrafos escrevem sobre a vida de homens bons, é claro que não expressam suas lutas internas e medos, amenos que seja o caso de um homem como Martinho Lutero, cuja vida se caracterizou por uma continua luta interior e que, embora parecesse corajoso por fora, não raro tremia por dentro. Quando escreverem sobre minha vida, vão contar que tive uma fé forte, mas não vão contar tudo sobre o outro lado dela. E então você vai talvez ficar pensando: “Ah, não consigo chegar à altura que Spurgeon atingiu!”. Isso é porque lhe falta o conhecimento do interior do ser humano, pois, se você conhecesse o interior e o exterior do homem que caminha mais próximo a Deus – se for sincero e honesto, há de contar -, saberia que as tentações pelas quais você tem de passar são as mesmas tentações pelas quais ele teve de passar. E ele sabe que as terá muitas outras vezes e sabe que, como diz o apóstolo: “Não veio sobre vós nenhuma tentação que não fosse humana...”.

Então repito: nenhuma tentação o assaltou que seja diferente daquelas com que os homens em geral são testados em determinado processo de provação. Esse momento não é o da vitória final, irmão. É a hora da batalha, e as armas usadas contra nós são as mesmas empregadas contra os exércitos dos fieis em todas as épocas. Você e eu nunca fomos tentados como os anjos que mantiveram seu primeiro estado e venceram a tentação. Não posso dizer como príncipe das trevas foi tentado ou como tentou sues companheiros, servos da lealdade ao grande Rei; mas de uma coisa tenho certeza: você nunca foi assaltado com a tentação própria de um anjo. Sua tentação só foi àquela adequada a um homem e aquele que outros homens como você superaram. Outros lutaram bravamente contra tentações semelhantes à sua, e você deve fazer o mesmo. Sim, você deve fazer o mesmo pelo poder do Espírito de Deus que repousa sobre você. Costuma-se dizer, nos assuntos da vida comum, que o que o homem fez o homem pode fazer, e isso vale também em relação à vida espiritual. As tentações vencidas por outros homens podem ser vencidas por você, se você procurar a mesma fonte de força e se a buscar no mesmo nome em que eles buscaram. A força para vencer a tentação vem de Deus somente, e o nome da vitória é o nome de Jesus Cristo; portanto, avance nessa força e nesse nome contra todas as suas tentações. Mãos à obra, pois já foram derrotados muito tempo atrás, e você deve derrota-las novamente. Não estremeça por seguir de luta em luta e de vitória em vitória, como aconteceu a outros que vieram antes de você e agora entraram em seu descanso.

Outros já estiveram de luto aqui na terra
e molharam de lágrimas seus leitos;
lutaram arduamente, como nós, agora,
com pecados, e dúvidas, e medos.

Se você pudesse perguntar a eles de onde veio à vitória, eles a atribuiriam aos recursos que estão disponíveis a você quanto estiveram a eles – precisamente radiosa obra e Deus, ao Espírito Santo e ao sangue e à justiça do Senhor Jesus Cristo. Nenhuma tentação aconteceu a você diferente daquelas com as quais os seres humanos podem lidar e conseguem superar com a ajuda de Deus.

Repito: até agora nenhuma tentação lhe sucedeu além das que são comuns ao homem, e a todas Cristo enfrentou. O grande de cabeça da humanidade, o representante dos homens, sofreu a mesma tentação que agora está afligindo você. “Em toda a angústia deles” – ou seja, a aflição de seu povo no deserto, que é exatamente igual à sua, se você está no deserto -, “em toda a angústia deles, ele também ficou angustiado, e o anjo da sua presença os salvou” (Is 63.9). Ele estava rodeado por enfermidades, “homem de dores e experimentado nos sofrimentos” (Is 63.9). Repetindo o texto que já citei e que é tão adequado aqui, ele, “à nossa semelhança, foi tentado em todas as coisas” (Hb 4.15). “Por essa razão era necessário que em tudo se tornasse semelhante a seus irmãos, para que viesse a ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas que dizem respeito a Deus, a fim de fazer propiciação pelos pecados do povo. Porque, naquilo que ele mesmo sofreu, ao ser tentado, pode socorrer os que estão sendo tentados”. Ele sabe tudo sobre o problema de cada um de nós e sabe como lidar com ele e como sustentar-nos em meio à luta.
Portanto, queridos amigos, nenhuma tentação lhes sucedeu exceto a que é comum aos homens, no sentido de ter sido enfrentada por homens como vocês, tendo sido superada por homens como vocês e tendo sido enfrentada e vencida por seu Representante bendito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Venha então, amado, e deixe que dissipe todo o mistério em relação a suas tentações. O mistério dá margem à espada da provação. Talvez a mão que escreveu na parede não teria amedrontado Belsazaer, se ele pudesse ter visto o corpo ao qual pertencia aquela mão. Afinal, não há mistério sobre seu problema. Embora você o tenha qualificado como sem dúvida o maior que já sucedeu a qualquer ser humano antes, isso não é a verdade; você não é um imperador no reino da desventura. Não pode verdadeiramente dizer: “Eu sou o homem que viu a aflição mais que todos os outros”, pois seu Senhor suportou muito mais que você já suportou, e muitos de seus santos, que passaram da fogueira à coroa, devem ter sofrido muito mais do que você tem sido chamado a sofrer até o momento.

II. Voltemo-nos ao segundo conforto revelado em nossa passagem:

A FIDELIDADE DE DEUS.
“Não veio sobre vós nenhuma tentação que não fosse humana. Mas Deus é fiel...”.

Ah, que palavra abençoada esta: Deus é fiel! Portanto, ele é fiel à sua promessa. Mesmo Balaão disse: “Deus é homem para que minta, nem filho do homem, para que se arrependa. Por acaso, tendo ele dito, não o fará? Ou, havendo falado, não o cumprirá?” (Nm 23.19). Uma das promessas de Deus é:“Nunca te deixarei, jamais te desampararei” (Hb 13.5). “Deus é fiel”; então vai cumprir essa promessa. Aqui está uma das promessas de Cristo, e Cristo é Deus: “... minhas ovelhas. Estas ouvem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem. Dou-lhes a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrancará da minha mão” (Jo 10. 26-28). “Deus é fiel”, então essa promessa será cumprida. Você certamente já ouviu esta promessa muitas vezes: “... a tua força seja como os teus dias” (Dt 32.25). Você acredita nisso ou vai fazer de Deus um mentiroso? Se acredita, então varra de sua mente todos os pressentimentos sombrios como esta pequena frase abençoada: “Deus é fiel”.

Observe, em seguida, que não apenas Deus é fiel, mas também é o Senhor da situação, para que possa cumprir sua promessa. Note que o texto diz: “e não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir” (1 Co 10.13). Assim, você não poderia ter sido tentado se Deus não tivesse permitido que isso acontecesse. Deus é muito mais poderoso que Satanás. O diabo não pôde tocar Jó, exceto por permissão divina, nem ele pode tentar e provar você a menos que Deus permita. Ele precisa de autorização do Rei dos reis antes que possa tentar um único santo. Por quê? Satanás não tem permissão para manter a chave da própria casa, pois as chaves da morte e do inferno estão presas ao cinto de Cristo, e, sem a permissão de Deus, o cão do inferno não pode sequer abrir a boca para latir a um filho de Deus, muito menos para vir e preocupar qualquer uma das ovelhas a quem o Senhor, por sua graça, chamou a seu aprisco. Por isso, amado, você tem grande razão de consolo pelo fato de a tentação que o prova ainda estar sob o controle do Criador fiel que “não deixará que sejais tentados além do que podereis resistir”.

Essa é uma segunda razão para o conforto; saboreie-a debaixo da língua como um pedaço de doce.  

III. O terceiro conforto está na:

RESTRIÇÃO QUE DEUS IMPÕE À TENTAÇÃO.
“... não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir”.

A maré da provação deverá subir ao mais alto nível da água, e então Deus dirá: “Até aqui virás, mas não avançarás; e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas” (Jó 38.11).

Ele “não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir”. Isso pode aplicar-se, às vezes, ao período em que a tentação sobrevém. Tenho observado cuidadosamente como Deus controla o tempo da prova de seu povo. Se tal e tal provação tivesse vindo a um de seus filhos quando jovem, acredito que ele não teria suportado; ou, se a pessoa tivesse perdido algum amigo querido enquanto ela mesma estivesse doente, o problema em dobro a teria esmagado. Mas Deus envia nossas provações na hora certa e, se coloca um peso extra de uma forma, tirar algum peso de outra forma. “Tu [...] os expulsaste com o vento forte, na época do vento oriental” (Is 27.). Trata-se de algo muito simples, mas verdadeiro: se o vento sopra do Norte, não sopra ao mesmo tempo do Sul; e, se uma série de problemas vem a um homem cristão, outra série de problemas geralmente se afasta dele. John Bradford, o famoso mártir, sofria muitas vezes de reumatismo e depressão de espírito, algo com que posso muito me identificar. Mas, quando foi aprisionado em um calabouço sujo e úmido e soube que nunca sairia dali a não ser para morrer, escreveu: “É singular o fato de que, desde que estou nesta prisão, já tendo outras provas para suportar, meu reumatismo e minha depressão de espírito não tenham nem sequer tocado em mim”. Isso nem se quer é uma grande bênção? E você vai descobrir que normalmente é assim; você não será tentado além do que é capaz de suportar, porque Deus vai permitir que a prova venha em um momento em que você seja mais capaz de suportá-la.

Há também grande bondade da parte de Deu quanto à duração da provação. Se algumas das nossas provas durassem muito mais tempo, se tornariam muito pesados para suportar. Com respeito à destruição de Jerusalém, nosso Senhor disse: “E se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém seria salvo; mas por causa dos escolhidos eles serão abreviados” (Mt 24.22). Não tenho dúvida de que muitas vezes Deus opera de imediato nas provações de seus filhos, porque, se continuassem por mais tempo, elas não teriam um efeito bom, mas ruim sobre nós. Se uma criança precisa ser corrigida, não deixe a punição durar como se ela fosse um criminoso que deve ser condenado por longo período; dê-lhe o castigo merecido e encerre a questão. Assim acontece muitas vezes na disciplina da casa de Deus. Entretanto, existem provas que são prolongadas ano após ano, porque a provação é um ingrediente eficiente e, se fosse encurtada, talvez não nos abençoasse. Em todos os casos, há uma sabedoria infinita que torna nossos problemas tão longos quanto necessário, e não mais que isso.

O mesmo se aplica ao número de provações. Bendito seja Deus,

Se ele ordena o número dez,
Nunca pode ser onze.

Se ele planeja que seus servos passem pelo fogo e não pela água, o próprio Satanás não pode fazê-los passar pela água. Deus conta as gotas do tônico amargo que dá a seus santos enfermos, e eles não poderão receber nenhuma gota a mais do que ele determinou. Então, queridos filhos de Deus que hoje experimentam a tentação, as tentações que enfrentarão, bem como o número delas, não serão maiores do que podem suportar.

O mesmo também acontece quanto à força em que a tentação sobrevém. Você nunca viu uma grande árvore sob impacto de uma tremenda tempestade? Ela balança para lá e para cá e parece pouco capas de recuperar-se dos golpes poderosos da tempestade; no entanto, as raízes a sustentam. De repente, vem outro tornado, e parece que a árvore será lançada para fora da terra, mas a tensão cessa justamente a tempo de o velho carvalho balançar com fúria de volta a seu lugar. Entretanto, se quase um quilo de força a mais fosse exercido naquela tremenda explosão, a árvore cairia prostrada sobre a grama. Assim Deus, no caso de seu povo, em todas as circunstâncias, só para no ponto certo. Você pode ser tentado até não ter nem um pingo a mais de forças. Às vezes, o Senhor prova seu povo até parecer que mais um sopro dele certamente faria com que todos naufragassem. É nesse momento então que ele estende sob eles seus braços eternos, e nenhuma outra prova lhes é infligida. Isso é uma bênção para todos vocês que têm problemas de qualquer tipo, e vocês, que pertencem ao povo de Deus, podem ver texto e descansar completamente nele: “Deus é fiel e não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir”. Quando aos que não são seu povo, sinto muito por vocês. Estou expondo essas verdades preciosas, mas elas não são para vocês. A Palavra de Deus declara: “O ímpio tem muitas aflições” (Sl 32.10). Se você não tem um Deus em quem buscar refúgio, o que fará quando as tempestades açoitarem seu barco? Para quem ou para onde você pode fugir? O cristão pode cantar:

Ó bondoso Salvador,
Sê tu meu amparador;
Negras ondas de aflição,
Fortes ventos perto estão.
Deste espanto e do terror
Vem salvar-me, ó bom Senhor;
e no porto faze entrar
minha barca sem quebrar.
(Charles Wesley, Salmos e hinos, 169)

Mas, pobre alma querida que não ama a Cristo, onde você pode encontrar conforto nos momentos de tristeza e provação? Você, que perdeu a esposa e os filhos, você, que é oprimido pela pobreza, você, que está atormentado pela doença, você, que ainda não tem o Salvador, o que pode fazer? Pobres sem teto em uma tempestade de neve, o que podem fazer sem ter nem sequer um arbusto para abriga-los? Esse é exatamente o seu estado, e lamento por vocês, e imploro que não permaneçam nessa condição tão deplorável nem por um momento mais.

Venham, almas culpadas, e voem
como pombas às chagas de Jesus;
este é o dia das boas-vindas do evangelho,
em que à graça livre ele conduz.

IV. O próximo conforto que extraímos da nossa passagem relaciona-se com:

A PROVISÃO QUE O SENHOR DÁ ÀQUELE QUE É TENTADO.
“Mas Deus é fiel e [...] justamente com a tentação providenciará uma saída...”.

No original grego, o versículo diz: “juntamente com a tentação providenciará uma saída”, pois há uma maneira correta de escapar da tentação. Há vinte maneiras improprias, e ai do homem que faça uso de qualquer uma delas. Mas há apenas uma maneira adequada de escapar à prova, e esse é o caminho reto, o caminho que Deus providenciou para seu povo trilhar. Deus abriu em meio a todas as provas o caminho por onde seus servos poderiam sair corretamente. Quando os corajosos jovens judeus foram provados por Nabucodonosor, havia um caminho pelo qual poderiam ser preservados da fornalha de fogo ardente. Tinham apenas de dobrar os joelhos diante da grande imagem quando a flauta, a harpa, a cítara e o saltério soassem. Aquela forma de escape nunca teria funcionado, pois não era o caminho certo. O caminho para eles eram serem jogados dentro da fornalha e lá terem a presença do Filho de Deus passeando com eles no meio do fogo, o qual não podia atingir. Da mesma forma, sempre que você for exposto a qualquer provação, tenha em mente não tentar da maneira errada.

Observe especialmente que o caminho certo é sempre o que Deus planeja; portanto, quem estiver exposto agora à tentação ou à provação não crie sua própria forma de escape. Deus, e somente Deus, tem de fazer isso por você. Por isso, não tente escapar por si mesmo. Conheci um homem que estava com problemas de falta de dinheiro, e a solução que buscou foi usar o dinheiro de alguém de quem ele era o depositário fiel. Esse não era o caminho de escape de Deus para ele; por isso, só mergulhou em provação pior que a de antes. Conheço um homem de negócios que estava em grande dificuldade. Tudo estava dando errado para ele; então ele especulou, apostou e arruinou seu negócio e seu caráter pessoal. Aquele não era o caminho de Deus para ele escapar de seus problemas. Às vezes, a melhor coisa que um homem com problemas pode fazer é não fazer simplesmente nada, mas deixar tudo nas mãos de Deus. “Acalmai-vos e vede o livramento que o Senhor vos trará” (Êx 14.13). Quando os israelitas saíram do Egito, Deus os guiou de uma forma que poderia muito bem ter provocado murmurações. Não havia nada diante deles a não ser o mar, e trás deles vinha o faraó com toda a sua fúria, gritando:“perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; o meu desejo se fartará deles; arrancarei a minha espada, a minha mão os destruirá” (Êx 15.9). Qual seria agora o caminho de Deus para o escape deles? Exatamente através do mar vermelho. E do outro lado eles cantaram, quando os egípcios morreram afogados: “Cantarei ao Senhor, pois trinfou gloriosamente; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro” (Êx. 15.1). Teria sido lamentável se tivessem tentado escapar usando métodos próprios ou se tivessem tentado voltar para lutar contra o faraó. Tais alternativas não teriam tido êxito, mas o Senhor preparara para seu povo o melhor caminho de escape que pode haver.

Observe também que o Senhor provê o caminho de escape “juntamente com a tentação”. Ele permitiu a prova e, ao mesmo tempo, preparou o caminho para escapar dela. Deus planejou tudo, meu irmão. Não só que você, o campeão dele, sairá e lutará bravamente na força do Senhor, mas também que ele será seu escudo e sua grande recompensa. Ele o guiará ao fogo perigoso; no entanto, providenciará o escape da mesma forma que proveu os meios para você entrar nessa situação. Por isso, vai leva-lo em segurança. Não foi o salmista quem cantou: “àquele que conduziu o seu povo pelo deserto, pois seu amor dura para sempre” (Sl 136.16)? Não só os guiou para o deserto, mas os guiou através dele. Bendito seja seu santo nome! E, se o Senhor o levou para o deserto da angústia e da aflição, preparou o caminho para a saída ao mesmo tempo em que criou a aflição. “Confia no Senhor e faze o bem; assim habitarás na terra e te alimentarás em segurança. Agrada-te também do Senhor, ele satisfará o desejo do teu coração. Entrega teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará. Fará tua justiça sobressair como a luz, e teu direito, como o meio-dia. Descansa no Senhor e espera nele; não te aborreças por causa daquele que prospera em seu caminho, por causa do que trama o mal” (Sl 37. 3-7). Busque “primeiro o seu reino e a sua justiça” (Mt 6.33), e tudo o mais precisar lhe será dado. Mantenha-se afastado do pecado da tentação e não precisará temer o sofrimento da tentação. Se as provas não o levam a seus próprios expedientes de escape, mas o levam aos joelhos, elas serão, afinal, bênção para você.

Esse é o quarto conforto, que Deus preparou o caminho para seu povo escapar das provações. “Bem”, dirá alguém, “então vou escapar dessa provação”.Espere um momento, meu amigo, e ouça as palavras de encerramento da passagem bíblica com as quais vou concluir meu discurso.

V. Este é o último conforto:

O SUSTENTO QUE DEUS DÁ NA PROVA.
“para que a possais suporta”.

O caminho traçado por Deus para o livramento da provação não deve ser evitado pelo povo de Deus, de modo que ela não tenha de trilhá-lo. Antes, constitui um escape que faz o povo de Deus atravessar o problema até a saída na outra extremidade. Não foi uma fuga do mar vermelho, mas uma fuga através do mar vermelho que evitou uma provação ainda maior. Se você, amado, está exposto à prova ou à tentação, ele o capacitará a suportá-la. Todavia, ore antes de sair deste prédio, para que essa última palavra, sobre a qual não tenho tempo de me alongar, possa ser cumprida em sua experiência: “para que possais suportar”.

Suponhamos que você tenha de ser pobre. Bem, se Deus assim designou, você será pobre; por isso, ore para que seja capaz de suportar tal situação. Como diligência honesta e com integridade inflexível, lute para chegar a uma posição melhor, mas, se todos seus esforços falharem, então diga ao Senhor:“todavia, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42). Talvez seu querido filho esteja morrendo ou sua esposa esteja enferma; você se apavora com o pensamento de perdê-los e estaria disposto a dar a vida por eles, se pudesse. Bem, faça todo o possível para a recuperação deles, pois a vida é preciosa, e todo o dinheiro gasto para salvá-los será bem gasto; mas, se a saúde não lhes for concedida, ore para que possa ser capaz de suportar até mesmo essa prova tão pesada. É maravilhoso como Deus verdadeiramente ajuda seu povo a passar por problemas que seriam para eles absolutamente esmagadores. Tenho visto mulheres pobres e frágeis que pensei fossem morrer em seu luto, mas se tornaram corajosas e fortes, e vi homens antes covardes diante dos problemas bendizerem ao Senhor pela provação quando o golpe realmente lhes sobreveio. E você pode fazer o mesmo.

Suponhamos que você tenha de ficar doente. Bem, essa uma dura provação, e eu, pessoalmente, faria qualquer coisa que pudesse para escapar da aflição que muitas vezes me atinge; mas, se não tem de se assim, então preciso mudar minha lista de oração e pedir que eu seja capaz de suportar o sofrimento. Recebi uma carta de um homem de Deus esta manhã que me sustentou muito. Ele diz: “Meu querido irmão, senti muito por ouvir que você estava de novo com dores e com o espírito deprimido, entre outras coisas; mas, quando me lembrei de como Deus o tem abençoado de muitas formas, pensei comigo mesmo: “Talvez o sr. Spurgeon não continuasse a pregar as doutrinas da graça e não fosse tão capaz de confortar os fracos filhos de Deus, se não sofresse essas dores agudas de vez em quando”. Por isso quero parabeniza-lo por tais provações”. Aceitei as congratulações. Você não vai fazer o mesmo, meu irmão ou irmã em aflição? Ore: “Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Mt 26.39), mas se ele não afastar, então aqui está aquela outra forma de conforto: “para que possais suportar”.

E lembrem-se, queridos amigos, embora eu os incentive a fazer dessa passagem uma oração, ela é, de fato, uma promessa, e não há oração melhor que uma promessa que se transforma, por assim dizer, em oração. Deus mesmo disse, por seu inspirado apóstolo, que ele “não deixará que sejais tentados além do que podeis resistir. Pelo contrário, juntamente com a tentação providenciará uma saída, para que possais suportar”. Hasteiem as bandeiras, então! Em frente, seja o que for que obstrua o caminho! Catemos, com o bom e velho John Ryland:

Em meio a inundações e chamas, se Jesus guiar,
eu o seguirei por onde quer que for.
“Não me impeça” deve ser meu exclamar,
Embora a terra e o inferno venham a se opor.

A vida imortal dentro de nós nunca pode ser destruída; a natureza divina que Deus Espírito Santo implantou nunca será pisoteada. “Não te alegres a meu respeito, inimiga minha; quando eu cair, me levantarei; quando eu estiver em trevas, o Senhor será a minha luz” (Mq 7.8).

Mas, ah, sinto muito, muito, muito, muito, do fundo da minha alma, por você que não conhece o Senhor, pois esse conforto não é para você! Busque-o, rogo-lhe, busque-o como seu Salvador. Olhe para ele e confie nele; então, todas as bênçãos da aliança eterna serão suas, pois o Pai concedeu a ele ser o Líder e o Comandante sobre seu povo, e os que olham para ele e o seguem viverão para sempre e sempre. Deus o abençoe, por amor de Cristo! Amém.

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Trecho extraído do livro “Desintoxicação Sexual”; CHALLIES, Tim ; Ed. Vida Nova. P. 90-112



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terça-feira, 3 de junho de 2014

Xintoísmo – A religião desconhecida



Uma “mikô” ou auxiliar de um santuário Xintô, muito parecida com as antigas “vestais” do Ocidente.


Autor: André Otávio Assis Muniz (Acharya Hôraku)

Resumo
O presente artigo tem como objetivo apresentar ao leitor o Xintoísmo, religião muitas vezes citada quando se fala do Japão, mas muito pouco conhecida, inclusive nos meios acadêmicos especializados.
O Xintoísmo conta com poucas obras de referência fora do Japão e em outras línguas que não o japonês.
Sendo assim, nossa intenção é dar uma perspectiva geral ao leitor sobre essa religião, sua história, mitos e ritos.
Conhecer o Xintoísmo é necessário para entender a própria mentalidade e essência do povo japonês.
Abstract
The present article has like objective presents to reader the Shintoism, religion many times mentioned when one speaks about Japan, but not much knowing, including in the specialized academic environments.
The Shintoism has a few number of reference works outside Japan and in other languages that not japanese.
So , our intention is give a general perspective to the reader about this religions, its history, miths and rites.
Know the Shintoism is necessary for understand the mentality and essence of japanese people.
Introdução
Fora do Japão, em geral, quando se fala de Xintoísmo nos meios cultos, é comum que haja uma associação quase automática com o nacionalismo japonês típico da Segunda Guerra Mundial.
Pilotos suicidas, o culto fanático do Imperador do Japão ou as horríveis imagens das atrocidades cometidas pelos soldados japoneses na China são associadas com a mentalidade nacionalista “xintoísta”.
É incrível como, mesmo no Japão moderno, há um desconhecimento enorme sobre a tradição xintoísta. Os japoneses de hoje em dia foram educados para não se interessarem pelo Xintoísmo e, inclusive, para não vê-lo com bons olhos. O Xintoísmo é visto pelos mais jovens como algo ultrapassado, anacrônico, exótico e até estranho. No entanto, isso não corresponde com a realidade dessa religião milenar.
O Xintoísmo, como todas as religiões muito antigas, passou por diversos períodos de desenvolvimento e se modificou de acordo com as necessidades do tempo. Em algumas ocasiões foi usado como um eficaz instrumento de massificação (assim como outras religiões), mas, ao longo de sua milenar história, foi uma fonte de inspiração de virtudes para o povo japonês e uma forma bastante interessante de sacralização do tempo, do espaço e da natureza.
O Xintoísmo atual é fruto de, pelo menos, mil e quinhentos anos, de relação entre o ser humano e a natureza e dos modos como essa relação foi sendo expressada.
A propaganda de guerra americana foi extremamente eficaz em associar o Xintoísmo em geral com suas formas mais modernas, desfiguradas, moldadas para se tornarem auxiliares da máquina de guerra nipônica.
Esperamos que esse despretensioso artigo ajude o leitor a compreender isso.
I. Origens históricas
O Xintoísmo, diferentemente do Budismo, do Cristianismo, do Jainismo, do Sikhismo, Islamismo etc., mas de forma semelhante ao Hinduísmo, não tem um fundador conhecido ou uma lenda sobre um suposto fundador.
Não é fruto de uma revelação divina, da mensagem de um profeta, do patriarca semi-mítico de um povo, de um deus encarnado, de uma experiência de Iluminação ou algo semelhante.
O Xintoísmo foi desenvolvido desde a antiguidade pelos japoneses em suas vidas cotidianas, sem um corpo doutrinário estabelecido e sem um sistema de dogmas.
Não há uma “crença oficial” xintoísta, nem um corpo de idéias que se possa utilizar para classificar alguém como xintoísta. O Xintoísmo não se enquadra no conceito genérico de “religião” e só se usa essa palavra por falta de outra mais adequada.
Apesar dessa vagueza, as práticas xintoístas e sua influência sobre a mentalidade japonesa existem e influenciam fortemente a vida das pessoas.
Atividades como festivais, alguns deles enormes, mobilizando centenas de milhares de pessoas, práticas de purificação e agradecimento pelas colheitas são práticas cotidianas na vida dos japoneses, apesar de muitos deles não compreenderem as conexões entre essas atividades e o Xintoísmo ou seus mitos.
O Japão ultra-moderno e industrializado ainda realiza ritos purificatórios xintoístas antes de iniciar a construção de seus prédios. A vida dos japoneses que ainda seguem os costumes (ainda que sem entendê-los) é marcada por ritos do Xintoísmo.
I.1. Origens remotas
A formação dos mitos xintoístas se inicia por volta do período Jomon (8000 a.E.C. – 300 a.E.C.) quando idéias de divinizar as forças da natureza, rezar a elas e lhes fazer oferendas começam a surgir no meio do povo. O “contato” entre os deuses e as pessoas era feito através de pessoas especialmente “dotadas” para isso.
No Período Yayoi (300 a.E.C. – 250 E.C.) foram trazidas da China para o Japão técnicas de cultivo de arroz, manufatura de peças de bronze e técnicas mais apuradas para a confecção de vasos e artefatos de cerâmica.
As regiões com maior desenvolvimento e maior força (maior número de armas de bronze, informações etc), dominavam as regiões e povoados menores.
Dessa maneira, por volta do século III da E.C. havia cerca de 30 pequenos “países” dentro do arquipélago japonês dominados por uma rainha chamada Himiko. O país de Himiko foi denominado de Yamatai.
Himiko era uma xamã que dizia comunicar-se com os deuses da chuva, das colheitas, das doenças e que podia prever o resultado das batalhas. Dizem as crônicas que Himiko morava em uma construção de madeira (um palácio primitivo) com mais de 1000 criados, mas que só seu irmão podia vê-la. Isso era um sinal de que Himiko era divinizada. Até hoje, os objetos que representam o “corpo dos deuses” do Xintoísmo, não podem ser vistos nos jinja (templos xintoístas).
Himiko mantinha contatos com a China e trocava presentes com o Imperador de Wei.
Himiko foi morta em uma guerra entre Yamatai e Kuna, um dos pequenos “países” dentro do arquipélago japonês. O túmulo de Himiko, erguido por seus súditos, tinha cento e cinqüenta metros de diâmetro.
Depois disso, os vários reis e rainhas das diversas regiões do Japão sempre assumiam um caráter divino diante do povo.
I.2. Formação de Yamato
Em meados do século IV da E.C. uma poderosa nação se formou na região que hoje é conhecida como Nara. Esta nação, formada por diversos clãs reuniu-se em torno do mais poderoso deles, o Yamato.
Escavações deste período revelam que junto dos mortos eram enterrados objetos e imagens de barro para os “consolar”. As práticas religiosas xintoístas eram parte do dia-a-dia do povo. Eram costumes transmitidos através das gerações, sem nenhuma “escritura sagrada”, dogmas ou doutrina própria.
Diversas guerras intestinas ocorreram, mas, no final do século IV, Yamato já era um Império que mantinha contato com a China e a Coréia de onde trazia técnicas em diversas áreas.
Os clãs que apoiavam essas ações, mandavam representantes para aprenderem as novas técnicas etc., eram recompensados com domínios, terras e possessões.
Dessa maneira, foi introduzida a escrita chinesa (kanji – literalmente “escrita de Han”), tecelagem, metalurgia etc., no Japão.
Junto com essas novas tecnologias chegou a primeira estátua budista ao Japão, vinda da Coréia.
O clã Soga apoiou vigorosamente a idéia de que fosse introduzida a nova religião no Japão, enquanto o clã Mononobe se opôs. Os Soga viam o Budismo como um sistema mais avançado e sofisticado, seguido por impérios muito mais desenvolvidos que o Japão. Já os Mononobe criam que introduzir o Budismo seria atrair a ira dos deuses do Xintoísmo para o país.
A questão foi submetida à autoridade do príncipe Shotoku Taishi que, desejando a paz para o país apoiou aos Soga e introduziu o Budismo, tornando-se um praticante zeloso e seu grande protetor e propulsor.
Os Soga, detentores de grande poder, tentaram manipular a situação quando perceberam que o interesse de Shotoku no Budismo era real e profundo e não uma mera questão de política contra os Mononobe. Propuseram a uma princesa de sua família que se tornasse imperatriz. A princesa Kashikiya aceitou a proposta e se tornou a imperatriz Suiko mas, para descontentamento dos Soga, logo em seguida nomeou como regente o príncipe Shotoku.
As medidas políticas de Shotoku diminuíram a força dos Soga e formaram um país centralizado no Imperador.
As posições do governo eram oferecidas por mérito pessoal e não por posição familiar. Adotou-se um sistema hierárquico de doze divisões para os funcionários públicos que eram diferenciados pela cor da pequena coroa de tecido que usavam.
O príncipe Shotoku deu início ao processo que culminaria com a chamada “Reforma Taika” (posta em prática pelo príncipe regente Nakano Ooe), ou seja, com base no modelo chinês de governo, as terras passam a pertencer ao imperador e os chefes dos clãs e grandes proprietários se tornam funcionários do Império.
I.3. Xintoísmo e Budismo
Enquanto o Budismo passou a ser a religião da nobreza, o povo continuava praticando o Xintoísmo. Na verdade, as duas práticas foram lentamente se fundindo.
O Imperador Yomei, por exemplo, disse: “O imperador crê no Budismo e respeita o Xintoísmo” (Nihon Shoki).
Foi um processo gradativo e espontâneo. As pessoas começaram a colocar as imagens budistas junto dos altares xintoístas.
O imperador Tenmu, foi monge budista antes de se tornar imperador em 673 da E.C. Sendo assim, rezava tanto para os Budas e Bodhisattvas, quanto para os Kami
O Budismo, com bases teóricas largamente desenvolvidas, acabou absorvendo o Xintoísmo. Esse fenômeno foi chamado de “Shinbutsu shugô” ou “amálgama dos Budas e Kami”.
O Budismo japonês desenvolveu a teoria de que os kami eram manifestações locais dos Bodhisattvas budistas que, quando em sua forma xintoísta, são denominados de ‘gongen’ ou “manifestação temporária”.
Essas práticas foram teorizadas através do “Honji-Suijaku”, ou “Essência universal – manifestação local”, uma doutrina desenvolvida por exegetas (kike) das Escolas Tendai e Nichiren de Budismo para explicar o relacionamento entre o Buda Eterno e o Buda humano Shakyamuni no capítulo 2 do Sutra do Lótus, “A Longa Vida do Tathagata”. Textos japoneses do final do século nono começam a afirmar que os kami são manifestações locais (suijaku) ou manifestações temporais (gongen) dos Budas e Bodhisattvas. No século XI da E.C. associações específicas começaram a ser feitas entre os kami e os Budas, Bodhisattvas e deuses do panteão budista.
Na prática, templos budistas e santuários xintoístas eram construídos lado a lado. Altares budistas encheram-se de elementos xintoístas e vice-versa. Os monges budistas administravam tanto os templos budistas quanto os santuários xintoístas. Os sacerdotes xintoístas eram assistentes dos templos budistas.
Grandes templos como o Enryakuji no Monte Hiei (sede da Escola Tendai japonesa) e o Koyasan (sede da Escola Shingon), desenvolveram seus próprios “estilos” de Xintoísmo.
No Monte Hiei se desenvolveu o “Sannô ichijitsu shintô” que é uma mistura do culto ao deus do Monte Hiei, Sannô, visto como um ‘gongen’ de Shakyamuni Buda e a mitologia particular da Escola Tendai, segundo a qual o fundador Saichô foi auxiliado em sua divulgação do verdadeiro significado do Sutra do Lótus pelo deus Sannô, protetor do templo Enryakuji e de todo o complexo de templos do Monte Hiei.
O “Ryôbu Shugô Shintô”, ou “Xintô de Duas Faces”, também denominado de “Daishiryuu-Shintô”, foi desenvolvido no período Kamakura e afirmava que a deusa do sol, reverenciada no santuário de Ise é uma manifestação do Buda Dainichi , principal divindade do Budismo Esotérico.
Todas essas teorias foram possíveis justamente pelo caráter flexível do Xintoísmo e pela sua ausência de doutrina.
Isso explica a aparente “mistura” entre o Budismo e o Xintoísmo na mentalidade japonesa tradicional. Na verdade, o que há é a mistura entre as tradições locais japonesas, que se manifestam através do Xintoísmo, e a religião Budista de origem Indo-Ariana.
Não é incomum nem contraditório encontrar oratórios budistas e xintoístas em uma mesma casa ou elementos xintoístas em templos budistas.
I.4. Xintoísmo de “Restauração”
Este estado de coisas permaneceu até o Período Edo (1600-1868 da E.C.) quando estudiosos nacionalistas começaram a desenvolver uma acentuada xenofobia e desenvolveram teorias para atacar tudo o que não fosse criação japonesa. Isso se deveu, em parte, à agressiva campanha colonialista da Espanha e de Portugal com o apoio da Igreja Católica Romana que estava em curso na Ásia do século XVII.
A reação nacionalista foi criar um Xintoísmo artificial, com teorias que exaltavam a figura do imperador e chegavam a extremos ridículos como a teoria de Hirata Atsutane (1776-1843) que afirmava que a medicina e a astrologia da China tinham sido criadas por deuses japoneses e que os deuses dos Vedas da Índia eram, na verdade, deuses japoneses disfarçados.
Outros autores como Kadano Azumamaro (1669-1736), Kamono Mabuchi (1697-1769) e Norinaga Motoori (1730-1801) também contribuíram para a idéia de que o Japão era um país superior a todos os outros (pois era o país dos deuses verdadeiros).
Como uma tentativa de reação ao Budismo e ao Confucionismo, surgiram teorias e dogmas ditos “xintoístas”. Na verdade, a apropriação de idéias budistas e confucionistas, disfarçadas como “originalmente xintoístas”, era a prática mais comum dentro dessas teorias.
A invenção de “tradições” ou as “descobertas” de “costumes perdidos” eram uma arma constante para exaltar o novo Xintoísmo nacionalista e xenófobo.
Tudo o que era inventado para a exaltação do nacionalismo era chamado de “ideologia dos antigos” e o Xintoísmo original, flexível, tolerante, informal e sem dogmas praticado até então era “intrusão estrangeira” e “decadente”.
Hirata Atsutane chegou a afirmar que o Japão era a origem de todos os países do mundo, superior a todos em qualquer aspecto e de que o imperador era o poder supremo do país.
Na época, o governo Tokugawa considerou tais idéias estúpidas e subversivas, uma vez que os próprios regentes da classe samurai eram budistas, estudiosos do Confucionismo e mandavam muito mais que o imperador.
No entanto, o descontentamento com o shogunato devido a uma intensa crise econômica e a chegada dos navios americanos que exigiram a abertura dos portos sob ameaça de invasão, deu o espaço necessário para que tais idéias se popularizassem.
Os últimos anos do Período Edo foram de guerra civil entre o shogunato e seus opositores.
Quando o último shogun da família Tokugawa caiu em 1868, surgiu a Era Meiji e vários partidários das idéias do nacionalismo xintoísta “de restauração” passaram a fazer parte do novo governo que, agora, era encabeçado pelo imperador, tido como um deus vivo.
Já no início da chamada “Reforma Meiji” (1868) o governo decretou leis para separar o Budismo e o Xintoísmo.
Os grupos nacionalistas, estimulados pelo governo e insuflados pelos agora “todo-poderosos” chefes dos santuários xintoístas, começaram uma onda de ataques, saques e vandalismo contra os templos budistas e os monges.
Os nacionalistas fizeram correr entre o povo um boato de que o Budismo tinha sido proibido e que os templos deveriam ser destruídos sob pena de traição à coroa imperial.
Monges foram mortos e templos históricos foram completamente depredados. Alguns foram incendiados. Nem os templos mistos (budistas-xintoístas) foram poupados. Na ilha de Oki não sobrou nada, literalmente.
Depois do horror geral, o governo baixou uma lei devolvendo cargos aos monges budistas que trabalhavam em templos xintoístas. Os monges budistas eram obrigados a se vestirem como sacerdotes xintoístas.
No terceiro ano do governo Meiji, o imperador decretou uma lei considerando a difusão da nova versão do Xintoísmo como um dever do Estado. Decretou como feriados nacionais as datas religiosas como o “kingensetsu” (data da coroação do primeiro imperador, Jinmu) e o Tenchosetsu (aniversário do imperador).
Criou-se uma hierarquia para os santuários xintoístas de todo o país. Quanto mais próxima a relação do kami com a família imperial, mais alta sua classificação hierárquica.
Isso deu origem ao “Kokka Shintô” ou “Xintoísmo Estatal”, em oposição ao “Shuha Shintô” ou aqueles movimentos derivados do Xintoísmo que não estavam atrelados à versão oficializada nacionalista do mesmo.
As forças armadas japonesas utilizaram todo esse aparato ideológico para sua máquina de guerra. O próprio termo “kamikaze”, que significa “vento divino”, faz uma alusão distorcida ao poder dos deuses do Xintô. Pilotos suicidas recém saídos da adolescência eram convencidos da alta honra de sua tarefa através da pregação de que seriam emissários dos deuses contra os inimigos “inferiores”…
O fim dessa ideologia macabra do “Xintoísmo de Restauração” se deu com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial.
Em 1945, as Forças de Ocupação Americanas prepararam um documento que separou o Xintoísmo do Estado.
I.5. Xintoísmo hoje
Com a separação do Xintoísmo do Estado, se criou uma entidade particular chamada de “Jinja Honcho”.
A “Jinja Honcho” hoje engloba aproximadamente oitenta mil santuários xintoístas no Japão e tem como sede o Santuário de Ise. Como pessoa jurídica religiosa, estabelece normas básicas sobre a prática do Xintoísmo nos santuários que dela fazem parte.
A Jinja Honcho publica o periódico “Jinja Shintô”, forma sacerdotes, publica e distribui livros, além de promover atividades para a promoção dos templos e do Xintoísmo em geral.
A orientação geral dos santuários que integram a Jinja Honchô é bastante antipática em relação ao Budismo ou aos templos budistas que ainda conservam santuários de deuses xintoístas (como os das Escolas Tendai e Shingon).
A figura do imperador japonês é idealizada e divinizada dentro das instituições integrantes da Jinja Honcho que, inclusive, é quem organiza grande parte do protocolo relativo às visitas ao Imperador ou à sua família. É claro que esse protocolo não passa de etiqueta sem nenhuma validade legal, uma vez que hoje o Japão é um país laico.
Por ocasião da última visita do príncipe japonês ao Brasil, as crianças brasileiras nipo-descendentes foram orientadas a não fitar o imperador, numa clara demonstração do ranço do passado que ainda persiste. O imperador japonês, no Brasil, não tem autoridade nenhuma e nenhuma das crianças, sejam brasileiras ou japonesas são “súditos” do imperador.
Hoje, no Japão, os santuários xintoístas são locais para distribuição de amuletos, pedidos de boa sorte, boa fortuna, saúde, casamentos, rituais de fertilidade e outros rituais do gênero.
As novas religiões japonesas, em geral, utilizam muitos elementos do aparato ritual do xintoísmo e, atualmente, têm uma aceitação maior do que o Xintoísmo atrelado à Jinja Honcho.
II. Fontes literárias originais
Os mitos fundadores do Xintoísmo foram transmitidos oralmente até o século VIII da Era Cristã, quando foram registrados por um nobre da corte chamado Yasumaro Oono no ano de 712.
A obra de Yasumaro chama-se “Kojiki”, ou seja, “Crônicas dos fatos antigos” e reúne a genealogia mitológica do Japão, hinos aos deuses etc.
As tradições japonesas afirmam que o Kojiki foi iniciado pelo imperador Temmu que no ano de 673 da E.C. usurpou o trono e, dessa forma, queria contar a história “correta” dos clãs. Temmu recitou o material para Hiyeda no Are, um membro de sua corte que tinha uma prodigiosa memória. Não se conhecem quaisquer detalhes sobre Are, nem se era um homem ou uma mulher. Por vinte e cinco anos depois da morte do imperador Temmu se diz que Are preservou o texto antes de transmiti-lo, por ordem da imperatriz Gemmyo, para Yasumaro que colocou as tradições orais em forma escrita no ano de 712.
Há outra versão, preferida pelas instituições xintoístas atuais, que diz que o que Hiyeda no Are decorou não foi a história de Temmu (para contar a história “correta” dos clãs, e legitimar sua própria posição como imperador), mas sim duas obras mais antigas ainda, o Teiki (“A Origem do Império”) e o Honji (“Textos do Japão”).
Como haveriam contradições entre o Teiki e o Honji, o Imperador Tenmu designou a Hiyeda no Are para ler e decorar integralmente os dois livros. Trinta anos depois, o imperador Genmei designou a Yasumaro Oono para compilar as informações de Are.
Outra obra basilar do Xintoísmo é o “Nihongi” que é também conhecido como “Nihon Shoki” ou “Crônicas do Japão”. O Nihongi foi completado no ano 720 da E. C. e , provavelmente, é fruto da obra de vários autores.
O Nihongi contem os mitos e a história lendária do clã imperial Yamato, que legitimiza o poderio imperial no Japão.
Há que se notar que a necessidade de se colocar por escrito as tradições orais foi uma reação ao influxo do Budismo no Japão, com uma vasta literatura desenvolvida.
Esta reação não deve ser vista como algo negativo, mas sim como a sensação de necessidade de se ter uma história escrita, suas próprias lendas e costumes fixados, assim como já acontecia em outros países como a China e a Coréia.
III. Mitos de criação
O Kojiki relata que, há muito tempo atrás, o universo era uma massa sem distinção.
Um dia, o ar se separou em uma parte mais leve e em outra mais densa. A parte mais leve formou o céu e a mais densa tornou-se terra sólida.
No instante em que se extinguiu o caos surgiram três grandes deuses, Ame No Minaka Nushi no Kami, Takami Musubi No Kami e Kami Musubi No Kami.
Estes três deuses chamados de Hitorigami são os antepassados de todos os deuses.
Ame No Minaka Nushi fica entre o Céu e a Terra. O mundo espiritual é controlado por Takami Musubi No Kami e por Kami Musubi No Kami.
Depois do “Grande Deus”, formado pelo trio , dois outros deuses surgiram: Umashi Ashikabi Hikoji no Kami, que fornecia a força anímica aos seres (o sopro da vida) e Ame No Tokotachi No Kami que comanda o Universo da “planície celestial” e protege os seres humanos.
Os cinco deuses citados são denominados de Kotoamatsu No Kami e não têm uma forma e nem uma distinção de gênero.
Após os Kotoamatsu No Kami, mais dois deuses surgiram por geração espontânea e mais dez na forma de homens e mulheres.
Dos dez deuses surgidos na forma humana, os dois últimos formaram um casal: Izanagi No Mikoto e Izanami No Mikoto.
Como o universo ainda não tinha forma definitiva, Ame No Minaka Nushi No Kami deu a Izanagi uma lança chamada Nuhoko e pediu para que o divino casal desse forma ao mundo ( o mundo era o Japão, é claro).
O casal de deuses desceu pela ponte celestial Amano Hashidate e pararam no meio dela. Izanagi mergulhou a lança divina na massa viscosa do caos e a mexeu. Quando retirou a lança, gotas de sal caíram de sua ponta e se solidificaram formando uma ilha que foi chamada de Onogorojima. Eles então desceram até a ilha e lá ergueram uma coluna sagrada chamada de Ame No Mihashira e um palácio chamado Yahirodono onde passaram a noite juntos em uma divina união sexual solicitada por Izanami.
Izanami concebeu e deu à luz a um bebê prematuro, chamado de Hiruko. Hiruko foi colocado num barco e a correnteza o levou. Izanagi agora tomou a iniciativa de copular com Izanami e dessa segunda relação nasceram oito ilhas, o arquipélago Toyoakitsune No Ooyashima, que é o atual Japão.
De Izanagi e Izanami nasceram os deuses de todos os elementos naturais, o deus da montanha (Yama No Kami), o deus do mar (Umi No Kami), o deus dos rios (Kawa No Kami), o deus do campo (No No Kami), o deus das árvores e vegetais (Soumoku No Kami), o deus da pedra (Iwa No Kami), o deus da terra (Tsuchi No Kami), o deus do vento (Kaze No Kami) e o deus dos cinco cereais (Gokoku No Kami).
Por último nasceu o deus do fogo (Hi No Kami), também chamado de Honokagutsuchi, que acabou matando Izanami no parto.
Izanagi, enfurecido pela perda de sua amada Izanami, cortou a cabeça de Honokatsuchi com sua espada e de cada gota de sangue que jorrou nasceram vários outros deuses.
Izanagi, desesperado por ter sido separado de Izanami, decidiu descer ao Yomotsukuni, o país dos mortos, para resgatá-la.
Quando chegou lá, pediu que Izanami retornasse com ele. Ela lhe informou que era preciso o consentimento de Yomotsu Ookami (o Grande Deus dos Mortos) para deixar o Yomotsukuni. Sendo assim, era preciso que Izanagi aguardasse pela autorização.
Izanagi, no entanto, não agüentando mais, decidiu seguir Izanami e adentrou numa caverna onde ela havia se recolhido. Lá, se deparou com o corpo de Izanami decomposto e repleto de vermes. Izanami, se sentindo humilhada por ter sido vista neste estado, ordenou que as mulheres fantasmas da Terra dos Mortos (Yomotsu Shikome) e os soldados da Terra dos Mortos (Yomotsu Ikusa) pegassem Izanagi.
Izanagi fugiu sendo perseguido até encontrar um pessegueiro, árvore com o poder de afastar os maus espíritos. Lançando pêssegos contra seus perseguidores, conseguiu fazê-los dispersar.
Mesmo assim, a própria Izanami continuou perseguindo-o. Izanagi conseguiu escapar do país dos mortos e rolar uma imensa pedra para prender Izanami lá.
Izanami, enfurecida, amaldiçoou a Izanagi dizendo que morreriam mil pessoas por dia no país de Izanagi. Izanagi retrucou dizendo que faria que nascessem mil e quinhentas pessoas por dia em seu país.
Com o corpo impuro, devido a sua estada na terra dos mortos, Izanagi foi se purificar em um córrego de água limpa. Das gotas que caíam de seu corpo purificado nasceram outros deuses.
De dentro da água onde Izanagi estava, nasceu Watatsumi No Kami, o deus dos oceanos. Então, Izanagi lavou o rosto e de seu olho esquerdo purificado nasceu Amaterasu Oo Mi Kami, a deusa do Sol e do seu olho esquerdo nasceu Tsukuyomi No Mikoto, o deus da Lua. Do nariz de Izanagi surgiu Takehaya Susanoo No Mikoto, o deus da tempestade.
Os três deuses nascidos do rosto de Izanagi forma chamados de Mihashira No Uzu No Mikoto.
Amaterasu, a mais esplendorosa deusa, passou a reinar na Takama No Hara, a planície celeste.
Tsukuyomi No Mikoto passou a reinar no Yo No Osu No Kuni, o país da noite, e Susanoo No Mikoto passou a reinar nos oceanos .
III.1. Amaterasu Oo Mi Kami
Entre todos os kami presentes nos mitos de criação, com toda certeza, é importante destacar-se Amaterasu Oo Mi Kami.
Amaterasu Oo Mi Kami, significa, literalmente, “Grande Kami do Céu Brilhante”. É a principal divindade do Xintoísmo, apesar de haver discordância em relação a isso e está entronizada no santuário interno do maior e principal santuário xintoísta do Japão, o Ise Daijingu.
O Gênero de Amaterasu não foi definido até o sexto século da E.C. quando se convencionou que tratava-se de um kami feminino.
Identificada com o sol e a fonte da vida, é também vista como ancestral da família imperial japonesa.
Em 742 da E.C. , o monge budista Gyogi, personagem importante do Budismo em Nara, declarou que Buda era idêntico ao Sol, referindo-se ao Buda Dainichi. A identificação entre Dainichi e Amaterasu Oo Mi Kami foi inevitável.
Tal sincretismo permaneceu forte até a separação entre os Kami e os Budas (com o movimento denominado “Shinbutsu Bunri”) em 1868.
Antes da Era Meiji, Amaterasu era popularmente adorada com o nome de Tensho Daijin.
Amaterasu era considerada a ancestral de Jinmu Tenno, o primeiro imperador japonês. Daí sua forte ligação com a casa imperial e o fato de estar entronizada como divindade central do principal santuário imperial do Japão.
Com a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, o imperador teve que negar sua ascendência divina, mas, ainda hoje, os meios xintoístas mais conservadores mantêm essa crença de forma discreta.
Aliás, a crença de invencibilidade do Japão na guerra estava diretamente ligada à doutrina da “divindade” do imperador, o que nos remete ao mito de Amaterasu.
IV. Ritos
Os ritos do Xintoísmo estão ligados essencialmente à idéia de purificação.
O mito de Izanagi, purificando-se depois de voltar do “País dos Mortos” e o surgimento de diversos deuses como fruto desse rito purificatório, demonstra bem a idéia de que a vida e as funções de todo o universo dependem, para a mentalidade xintoísta, da pureza .
Tudo aquilo que não cumpre com a função para a qual foi disposto é impuro.
Por exemplo: O corpo foi projetado para a vida e o movimento, portanto, quando morre e se imobiliza torna-se impuro. O óvulo da mulher serve para unir-se ao espermatozóide e dar início a uma nova vida. Quando não cumpre essa função e vira sangue menstrual, é impuro. O sêmen deitado fora do óvulo é impuro. A comida transformada em fezes e a bebida transformada em urina são impuras. Sangue fora do corpo é impuro.
As impurezas são inevitáveis, mas, devem ser purificadas rapidamente para que não prejudiquem a vida.
Para se dirigir aos deuses é necessário estar purificado. Vários são os ritos purificatórios prescritos pelo Xintoísmo.
O mais simples é lavar as mãos e a boca com água limpa. Os mais complexos incluem vários dias de práticas ascéticas com banhos gelados sob as cachoeiras, aspersão de sal, isolamento das áreas sagradas com cordas de palha de arroz trançadas (shimenawa), enfeitadas com dobraduras de papel em forma de raio (shidê) entre outras.
É comum se limpar e regar a entrada de restaurantes e estabelecimentos comerciais com água pura e se colocar um pratinho com sal na porta (morishio). O sal, devido ao poder de conservar alimentos sem permitir que se tornem impróprios para o consumo, foi associado, há milênios, com poderes purificatórios.
Lutadores de Sumô jogam sal no dôhyo (arena circular) para a purificar. Em alguns santuários xintoístas, usam a água do mar (salgada) para a purificação.
Grande parte das famílias japonesas tradicionais mantém em casa um pequeno oratório, um santuário xintoísta em miniatura – diferente do altar budista (butsudan) , chamado kamidana. No kamidana são colocados amuletos de santuários ligados à família, à localidade em que vivem (ujigami- divindade protetora local) e ao santuário de Ise. Em geral há um símbolo dos deuses (shintai) que, comumente, é o símbolo de Amaterasu (um espelho circular chamado de Kagami) colocado em frente às portas do kamidana.
Diariamente se fazem oferendas de arroz, saquê (vinho de arroz), sal, água, ramos verdes de pinheiro japonês e diversos alimentos diante do kamidana. As pessoas fazem pedidos e reverenciam os deuses diante desse oratório.
Além desses ritos, existem os referentes às fases da vida como o rito do primeiro mês de vida de um bebê, o festival das meninas (3 de março), o dia das crianças (5 de maio), o Shichi-Go-San – ritos realizados quando os meninos têm três e cinco anos e as meninas três e sete anos – para pedir saúde, o Seijinshiki – rito da maioridade (aos vinte anos), o rito da Terceira Idade, para comemorar a longevidade (realizado aos sessenta, setenta, setenta e sete, oitenta, oitenta e oito, noventa e noventa e nove anos).
Os “yakubarai” são ritos pedindo boa sorte em períodos considerados críticos na maturidade. Em geral, os homens realizam os yakubarai aos quarenta e dois anos e as mulheres aos trinta e três.
V. Novas religiões influenciadas pelo Xintoísmo Tradicional
Vários novos movimentos religiosos foram fundados no Japão do final do século XIX e início do século XX com bases no Xintoísmo.
O Brasil tem templos da maioria deles e um expressivo número de adeptos.
A maioria dos adeptos dessas religiões não tem uma consciência muito clara das origens xintoístas ou das práticas derivadas especificamente do Xintoísmo.
Cada uma dessas novas religiões merece um artigo inteiro em sua análise e, portanto, não temos aqui qualquer pretensão de análise em profundidade . Apenas daremos alguns dados breves sobre elas para complementar uma visão geral sobre o Xintoísmo que é nosso assunto central.
V.1. Tenrikyô
O Tenrikyô (Religião da Sabedoria Divina) foi fundado em 1838 e é uma das mais antigas “novas religiões” do Japão.
Baseada nos ensinamentos de Nakayama Miki (1798-1887), esposa de um agricultor que vivia perto de Nara que se sentiu possuída pela divindade Tenri-O-No-Mikoto (O Senhor da Sabedoria Divina) e iniciou uma série de práticas curativas.
Tem como escrituras sagradas o Mikagurauta (Canções para a Dança Sagrada), o Ofudesaki (Ponta do pincel de Escrita Divino) e o Osashizu (Direções Divinas).
A essência de seu ensinamento é um pedido para que a humanidade leve uma “vida feliz”. A “poeira espiritual” impede que a mente seja capaz de levar essa vida feliz de serviço ao próximo. Essa “poeira” é removida no momento em que se recebe a graça divina (osazuke) e através da luta pessoal por uma vida harmoniosa.
A sede do Tenrikyô encontra-se na cidade de Tenri, perto de Nara no Japão.
Em seu principal santuário encontra-se o kanrodai, uma coluna hexagonal de onde, um dia, brotará orvalho doce e a partir do qual o Tenrikyô se tornará a religião de toda a humanidade.
Os crentes do Tenrikyô são chamados de yoboku, ou seja, mensageiros de um reino divino, troncos à partir dos quais o novo reino será edificado.
O Tenrikyô só foi reconhecido como religião independente do Xintoísmo em 1970. Até então era classificado como uma seita xintô.
V.2. Ômoto
A Ômoto é uma das novas religiões do Japão com maior influência. Foi fundada em 1892 por Nao Deguchi (1837-1918) e Kisaburo Ueda (1871-1948) que mais tarde ficou conhecido como Onisaburo Deguchi.
Segundo estatísticas recentes tem aproximadamente 173000 membros no Japão e alguns outros milhares em outros países. O Brasil é um dos países com mais membros da Ômoto.
Nao Deguchi, uma pobre viúva ,supostamente iletrada, começou a sentir-se possuída pela divindade Ushitora No Konjin (por volta de 1892).
Dessas “possessões” nasceram seus escritos que, mais tarde, foram aperfeiçoados por Onisaburo Deguchi que entrou na Ômoto por volta de 1899.
Onisaburo Deguchi, como era relativamente letrado e um bom orador, assumiu logo funções de grande importância na Ômoto, casando-se em 1900 com a filha mais nova de Nao Deguchi, Sumi.
A Ômoto teve seu ápice de florescimento em 1910, mas, já em 1921 começou a ser vista com maus olhos pelas autoridades japonesas que a proibiram.
No entanto, ao contrario do que esperavam as autoridade, a Ômoto floresceu mesmo assim e se propagou em missões para outros países, divulgando uma mensagem milenarista, de salvação universal e, ao mesmo tempo, de superioridade japonesa sobre os outros povos.
Em 1935, a Ômoto foi proibida pela segunda vez só recuperando seu status de religião permitida com a liberdade religiosa surgida após o final da Segunda Guerra Mundial.
A Ômoto é uma organização matrilinear, liderada pelas descendentes de Nao Deguchi, coadjuvadas por seus maridos.
O cânone da Ômoto é constituído pelo “Fudesaki” de Nao Deguchi e pelo “Reikai Monogatari”.
O Fudesaki (“Da ponta do pincel”) contém as revelações que Nao Deguchi teria recebido do deus Ushitora. Já o Reikai Monogatari (“Histórias do mundo espiritual”) de Onisaburo Deguchi, descreve a viagem da alma pelos mundos espirituais ocultos ao comum dos homens.
A doutrina da Ômoto, em linhas gerais, não difere muito das outras novas religiões japonesas. Os seres devem se purificar para que venha um futuro próspero e pacífico. A arte é apoiada como um dos instrumentos para tal fim.
A divindade central da Ômoto é Ushitora e ele criou o mundo e apoderou-se de Nao Deguchi para salvar a humanidade da destruição causada pelo seu egoísmo e materialismo.
É interessante notar que vários fundadores de novas religiões japonesas são provenientes da Ômoto. Exemplo disso são Masaharu Taniguchi, Mokiti Okada, Tomokiyo Yoshisane, Nakano Yonosuke e Asano Wasaburo.

V.3. Reiki
Apesar do Reiki não se apresentar propriamente como uma “religião”, mas sim como um “processo terapêutico”, existem certas características nele que poderiam incluí-lo no critério geral de uma “nova religião”.
A história do Reiki não nos deixa mentir.
Mikao Usui (1865-1926) era cristão e, em busca da fonte do poder curativo de Jesus, se sentiu atraído pelo Budismo. Depois de um período de jejum no Monte Kurama, perto de Kyoto, uma experiência mística levou-o a compreender o significado de “símbolos curativos” que havia encontrado em “velhos textos budistas”.
Quais são estes “velhos textos budistas”? Não se sabe. Os símbolos utilizados por Usui não aparecem em quaisquer textos do cânone budista e não passam de ideogramas chineses (kanji) e desenhos geométricos.
O Reiki transmite os “poderes” de “canalização” e “sintonização” necessários para sua prática através de três iniciações de caráter cerimonial.
Os praticantes de Reiki, de forma geral, não vêem o Reiki como uma religião, alegando que pode ser praticado por pessoas de qualquer religião. No entanto, antes da prática se fazem algumas preces de invocação e há implícita a idéia de um “fluxo energético” divino, as próprias iniciações e outros conceitos que entram pelo meio da prática.
Usui pregava uma moralidade bem próxima do Confucionismo e algumas idéias com marcante influência xintô. A noção de “Ki”, energia vital universal, é, originalmente chinesa. Mas, o xintô se apoderou vigorosamente do conceito juntando-o à idéia de “kannagara” que seria algo como um “fluxo divino universal”.
V.4. Gedatsukai
A Gedatsukai (Sociedade Iluminada) foi fundada em 1929 por Eizô Okano (1881-1948).
Okano tornou-se religioso depois de se recuperar de uma doença que o deixou às portas da morte em 1925. No dia 1º de Janeiro de 1929 teve uma revelação que o convenceu a fundar sua própria organização religiosa. Até 1945 a Gedatsukai manteve-se atrelada ao Budismo Shingon para evitar ser suprimida.
A Gedatsukai é sincretista e contém elementos do Xintoísmo, do Budismo Shingon, do Confucionismo e de crenças religiosas japonesas locais.
Os principais objetos de devoção da Gedatsukai são os Cinco Budas centrais do Budismo Shingon (Gochi Nyorai), os deuses xintoístas do Céu e da Terra, e o próprio fundador, que é divinizado.
A Gedatsukai reverencia os locais ligados à família imperial japonesa e realizam vários ritos com marcada influência espírita (mediunidade, contato com ancestrais, mensagens do além etc.).
A Gedatsukai tem como uma de suas práticas cotidianas o “amacha kuyô”, um rito fúnebre com oferta de chá doce para “pacificar os espíritos ancestrais” e purificar a mente.
V.5. Seichô-No-Ie
A Seichô-No-Ie é uma nova religião japonesa fundada em 1930 por Masaharu Taniguchi (1893-1985), antigo membro da Ômoto.
Tem duas vezes mais membros no Brasil do que no Japão.
As palavras “Seichô-No-Ie” significam “Casa de Crescimento”.
A principal escritura da Seichô-No-Ie é o “Seimei No Jissô”, em 40 volumes, de autoria de Masaharu Taniguchi. A tradução desse texto em português é “A Verdade da Vida”.
A Seichô-No-Ie é bastante pródiga em publicações que incluem jornais, revistas e livros com distribuição mensal de mais de 1,5 milhões de cópias.
O ensinamento da Seichô-No-Ie é sincrético e contém elementos budistas, xintoístas e cristãos.
O conceito fundamental é o de que o mundo, tal como o vemos, não existe. É apenas o reflexo da realidade divina distorcida pela lente da mente humana que se encontra embassada, ofuscada pelos vícios e pecados. Se os seres humanos se livrarem desses vícios e pecados e concentrarem-se na realidade divina, que é bela, harmoniosa e completa, perceberão que são filhos de Deus verdadeiramente perfeitos, saudáveis e harmoniosos e que a doença e a infelicidade são apenas percepções ilusórias de sua verdadeira natureza.
A Seichô-No-Ie dá uma ênfase ,bastante influenciada pelo espiritismo ocidental, no culto dos ancestrais e das crianças abortadas. Existem rituais específicos para “pedir desculpas” para as crianças abortadas pelo acontecido e assegurar seu “bem-estar” no mundo do além.
A doutrina da reencarnação também está presente.
Uma série de benefícios materiais, como saúde, prosperidade e harmonia, são atribuídos a certas práticas como fé, devoção filial, visão positiva da vida e gratidão por tudo.
A principal prática da Seichô-No-Ie é chamada de “meditação Shinsokan”, onde os praticantes tentam focar seus pensamentos na direção da divindade suprema.
V.6. Sekai Kyuseikyô (Igreja Messiânica)
A Sekai Kyuseikyô teve vários nomes antes de adotar esse em 1957. Dai Nihon Kannon Kai, Dai Nihon Kenkô Kyokai, Nihon Kannon Kyôdan, Nihon Miroku Kyôkai e, antes da denominação atual, Sekai Meshiyakyô.
Foi fundada por Mokiti Okada, ex-membro da Ômoto, em 1935.
Mokiti Okada era um resoluto opositor da medicina moderna, afirmando que ela não só não curava adequadamente como, também, era um verdadeiro veneno para o corpo.
Okada defendia que o processo de verdadeira cura é espiritual e se dá através da imposição das mãos de um curador que serve como canal da “luz divina”.
Os curadores devem receber uma medalha especialmente consagrada (ohikari), que lhes confere o poder de transmitir a luz divina através do processo de imposição de mãos denominado de “Johrei”. A medalha contém o ideograma chinês de “Luz” e não pode ser aberta. Se cair no chão deve ser “purificada”, antes que o curador imponha as mãos sobre alguém novamente.
Febres e constipações não deveriam ser tratadas, mas apenas vistas como um processo natural de purificação do corpo.
Okada era também um grande colecionador de arte e ansiava pela criação de um paraíso terrestre.
No Estado de São Paulo, a Igreja Messiânica construiu um gigantesco templo em um amplo terreno que é denominado de “paraíso terrestre” pelos seus adeptos.
V.7. Mahikari
A palavra Mahikari significa “luz verdadeira” e se refere, na verdade, a duas religiões fundadas em 1959 por Kotama Okada (1901-1974): a Sekai Mahikari Bunmei Kyôdan (Organização Religiosa Mundial da Civilização da Verdadeira Luz) e a Sukyô Mahikari (Supra-Religião da Verdadeira Luz).
Yoshikazu Okada, antigo membro da Sekai Kyuseikyô, fundou a Sekai Mahikari Bunmei Kyôdan depois de ter ouvido uma “ordem divina” para fundar o movimento, mudou seu nome para Kotama e “salvou a humanidade” do fim do mundo iminente.
A nova religião conseguiu se estabelecer muito bem, mas, depois da morte do fundador, travou-se uma luta pela sucessão entre sua filha adotiva, Keishu Okada (n.1929) e um de seus mais importantes seguidores, Sakae Sekiguchi (1909-1994). Em 1978, o Supremo Tribunal do Japão deu razão a Sekiguchi e, nesse mesmo ano, Keishu Okada fundou a Sukyô Mahikari.
Os dois ramos Mahikari praticam um proselitismo ativo, procurando abrir filiais em todo o mundo.
A doutrina Mahikari, assim como as das demais novas religiões japonesas é sincrética, sobretudo xintoísta, complementada com um milenarismo mais ou menos discreto.
O mundo é composto por várias camadas de infernos e por munods físicos, astrais e espirituais. No topo dessa cosmovisão está o deus Su, auxiliado por várias divindades conhecidas no Xintoísmo.
Pregam que o aquecimento global e as catástrofes naturais demonstram que começou a era do batismo de fogo que irá libertar os homens do egoísmo e do materialismo preparando-os para a renovação do mundo.
Para a Mahikari o corpo humano tem três dimensões: a física, a astral e a espiritual. Dessa forma, a maior parte das doenças, infelicidades e problemas financeiros ou pessoais é causada quer pelas impurezas acumuladas no corpo espiritual do indivíduo, quer como resultado da poluição, dos aditivos alimentares, da medicina moderna, de ações condenáveis ou, em alguns casos, pelo fato do corpo astral estar possuído por espíritos malévolos, muitas vezes de caráter ancestral.
A prática central da Mahikari é o “okiyome” ou “mahikari no waza”, o ritual em que se impõe as mãos para libertar a luz divina que se fundirá no corpo daquele que a recebe.
Os membros, depois de um seminário de três dias, recebem uma medalha (omitama) que lhes permite executar o okiyome nos seres humanos, animais, plantas, objetos ou espaços a serem purificados.
A Mahikari alega que o okiyome não cura doenças, mas ataca as suas causas subjacentes purificando o corpo espiritual do paciente o que prepararia os seres humanos para a renovação do mundo.
A veneração dos ancestrais é também altamente valorizada e estimulada na Mahikari. Utensílios como pequenos talheres, mamadeiras em miniatura (para crianças mortas), louças e outros do gênero, são dispostos na frente do altar dos ancestrais ou dos espíritos da família, para que eles possam se alimentar e terem as atividades que apreciavam enquanto eram vivos.
A negligência ou o tratamento inadequado dos túmulos e dos altares domésticos ancestrais contribui para o aumento do sofrimento no mundo astral fazendo com que seus descendentes se tornem alvo de doenças e de infelicidades de toda ordem.
V.8. Tenshô Kôtai Jingukyô
Fundada por Sayo Kitamura (1900-1967) a Tenshô Kôtai Jingukyô é milenarista e sincrética. A atual líder é a neta da fundadora, Kiyokazu Kitamura (n.1950).
A história dessa nova religião é muito parecida com a de todas as outras. A fundadora se sentiu possuída pelo supremo deus do universo (Tenshô Kôtai Jingukyô), uma mistura da divindade masculina Kotaijin com Amaterasu, a deusa do Sol, no ano de 1945.
A Tenshô Kôtai Jingukyô tem como objetivo construir um paraíso na terra através da purificação dos pensamentos, palavras e ações de cada um. O ano de 1946 é considerado o início da nova era e contado como ano 1.
Não há um sistema de ministros religiosos e a orientações são os sermões da fundadora. Os seguidores se encontram para o “tomo migaki” discutindo atividades e experiências.
A principal oração da Tenshô Kôtai Jingukyô tem origem budista, é a invocação ao título do Sutra do Lótus (Namu Myohô Renguê Kyô) usado pelas escolas Tendai e Nichiren de Budismo. Na interpretação desta nova religião, tal oração destina-se a purificar os espíritos malignos.
Nas reuniões há uma dança conhecida como “Muga no Mai” (dança do não ser) durante a qual os participantes dançam lentamente com os olhos fechados enquanto um membro experiente canta.
V.9. Byakkô Shinkôkai
Fundada por Masahisa Goi (1916-1980), que era devoto da Seicho-no-iê e estudou suas práticas de cura, aconselhamento espiritual e chegou a assumir as funções de mestre deste movimento. Masahisa sentiu uma união com a divindade criadora do Universo julgando-se seu portador na Terra e em 1955 fundou a Byakkô Shinkôkai.
Goi dizia que os seres humanos são emanações espirituais de deus, que vivem na Terra protegidos e vigiados por espíritos guardiões de outros reinos, que mantêm uma relação de interdependência com este mundo.
A Byakkô Shinkôkai promove práticas de cura espiritual e mediunidade mas tem como foco principal o que eles consideram ser a luta pela paz no mundo. Goi defendia que a paz não advinha da atividade política, mas sim da atividade espiritual e, como tal, desenvolveu uma série de práticas que os aderentes deviam seguir para este efeito. Tais práticas incluem as “orações mundiais pela paz”, desenvolvidas pelo movimento, bem como o levantamento de “pendões da paz” em todo o mundo. Estes, normalmente com cerca de 2 metros de altura e contendo a frase “Que a paz prevaleça na Terra” numa série de línguas (incluindo sempre o inglês e o japonês), são os sinais mais visíveis da Byakkô Shinkôkai no mundo.
O movimento dirige ainda uma organização conhecida por “sociedade da oração pela paz mundial”, que é sua marca característica fora do Japão.
Apesar de Goi ter morrido em 1980, seus seguidores acreditam que continua presente no movimento em termos espirituais. Seu sucessor, Masami Saionji, funciona como seu médium e porta-voz na Terra.
V.10. Ananaikyô
O movimento foi fundado em 1949 por Yonosuke Nakano (1887-1974). Ananai é um termo arcaico para designar a corda que prende os sinos do santuário xintoísta.
Yonosuke Nakano, em 1926, foi vítima de uma doença e no decorrer desta experimentou uma viagem da alma. Em 1929 juntou-se à Ômoto onde esteve ativo como missionário até a dissolução do grupo, em 1935.
Já em 1932, Nakano estudou o Chinkon Kishin, um ritual de possessão espiritual e purificação com o sacerdote xintoísta Katsutate Nagasawa (1858-1940). A doutrina do Ananaikyô é conservadora, sobretudo de origem xintoísta e fortemente influenciada pela Ômoto. A escritura principal é o Reikai Demita Uchu (“O universo visto pelo mundo dos espíritos”, de Nakano). A veneração dos antepassados é considerada essencial para assegurar o seu bem estar e sua proteção.
VI. Conclusão
Esperamos que, com esse despretensioso artigo, tenhamos introduzido os leitores ao mundo do Xintoísmo e de seus sub-ramos.
O Xintoísmo é parte inseparável na formação da mentalidade japonesa e, por incrível que isso possa parecer, é uma forte influência religiosa na vida de milhares de brasileiros que seguem as novas religiões japonesas.
É realmente admirável que, com algumas denominações com número superior de fiéis no Brasil do que no próprio Japão , o Xintoísmo e a própria cultura japonesa como um todo, permaneçam, em grande parte, desconhecidos até nos meios cultos e acadêmicos.
Compreender a mentalidade Xintô é compreender uma grande parte dos mecanismos de crença no Japão e no mundo.
VII. Bibliografia Consultada.
BOCKING, Brian. A Popular Dictionary of Shinto. Chicago: NTC , 1997.
EVANS, Ann Llewellyn. Shinto Norito – A Book of Prayers. [S.l.]: Trafford, 2001.
JINPO, Ikuo; SHIRAHIKO, Haruhiko. Manga Shinto Nyumon- Nihon no Rekishi Ni Ikiru Happyakuman no Kamigami. [ Tóquio ]: Sunmark, 1993.
BATH, Sérgio. Xintoísmo, o caminho dos deuses. São Paulo: Ática, 1998.
MATSUNAGA, Alicia; MATSUNAGA, Daigan. Foundation of Japanese Buddhism – Vol.I. Tóquio: Kenkyusha, 1978.
PARTRIDGE, Cristopher. The Encyclopedia of New Religions. Oxford: Lion Hudson, 2004.



Os deuses do Xintoísmo são denominados “kami”, que é a leitura japonesa do caractere chinês “Shen” que também é lido como “Shin”. Daí a própria palavra “Shintô” – Caminho dos deuses.
Governo militar japonês onde o poder estava nas mãos de um supremo general, o “shogun” e o imperador era apenas um símbolo do espírito japonês.
Hirata Atsutane diz, por exemplo, que a suprema divindade do Xintoísmo é Ame-No-Minaka-Nushi, o “Mestre do Augusto Centro do Céu”, divindade praticamente desconhecida pela imensa maioria dos japoneses.
Dainichi é a principal divindade do Budismo Esotérico Sino-Japonês e a tradução de seu nome é “Grande Sol”.

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